A importância dos especuladores para a economia

Especulaçao

Comecemos por responder à pergunta: O que é a bolsa de valores?

De forma simplificada, a bolsa de valores é o local físico ou virtual onde se negociam títulos de propriedade de sociedades de capital aberto, entre outros valores mobiliários e instrumentos financeiros derivados. Neste mercado organizado, os investidores compram e vendem esses títulos, que não são mais do que participações no capital de uma empresa (as ações).

A mais famosa bolsa de valores é, certamente, a de New York, localizada em Wall Street nº 11. No entanto, o mercado em si é cada vez mais intangível, com as transações a serem realizadas em tempo real a partir de qualquer computador ou smartphone em qualquer parte do mundo. 

wall street

Por vezes cria-se a ideia de que a subida e a descida no preço das ações deve-se a um aumento do número de compradores ou de vendedores, respetivamente. Tal ideia está longe da verdade. Para cada comprador tem de existir um vendedor, e o preço dos ativos é o encontro destes dois. 

Quando os compradores têm mais “pressa” em adquirir uma participação do que os vendedores de se desfazerem dela, os compradores têm de oferecer um valor mais “convincente”, elevando o preço. E vice-versa. O preço médio a que determinados ativos são negociadas a cada momento determina a sua cotação em bolsa.

Em geral, o preço dos ativos depende da relação oferta/procura. No caso de uma ação, esta é tanto mais apetecível quanto maiores são os lucros atuais e os lucros potenciais da empresa, já que, para distribuir os dividendos correspondentes à participação no capital, uma empresa tem de gerar receitas. Por essa razão, o preço atual de uma ação depende não só da empresa em si, mas também dos resultados das outras empresas cotadas, que podem tornar-se mais ou menos apetecíveis, competindo pelo interesse dos investidores. 

E onde é que os especuladores se encaixam? 

Um especulador é aquele que, esperando um movimento do preço em certo sentido, procura comprar em baixa e vender em alta (ou vender a descoberto em alta e comprar em baixa).

Uma crítica comum aos especuladores, é a de que tais investimentos são estéreis, não produzem riqueza, e só fazem o dinheiro mover-se de um lado para o outro, aproveitando-se da necessidade de outros. 

Tal crítica, no entanto, tem tanto fundamento como criticar os revendedores por comprar a um preço e vender a outro. Da mesma forma que um revendedor de bananas procura lucrar prestando um serviço útil tanto ao agricultor como ao comerciante, um especulador bem sucedido obtém lucros ao mesmo tempo que presta um serviço útil a terceiros.

Este serviço é importante para a economia na medida em que reduz o risco do mercado e suaviza a volatilidade dos preços, que de outra forma teriam um impacto desestabilizador.

Ilustro com um exemplo:

Suponha que um especulador estima que as tensões no Irão tenderão a aumentar e que o preço do petróleo (produzido nesse país) vai subir. Suponhamos ainda que esse risco não foi corretamente avaliado pelos mercados, pelo que o especulador crê que as ações da empresa de energia XXX, vendidas atualmente a 50€/ação, poderão estar subavaliadas. Nesse cenário, o especulador procurará comprar as ações antes que valorizem. A compra agressiva dos especuladores irá elevar o preço, digamos, para 55€/ação.

Entretanto, eclode a guerra no Irão, o preço do petróleo escala e o preço das ações da empresa XXX sobe para 70€. 

Uma análise superficial poderia sugerir que o lucro do especulador gerou um prejuízo para alguém, na medida em que a pessoa que vendeu inicialmente as ações ao especulador a 50€, perdeu a oportunidade de ganhar 20€ na valorização da ação. No entanto, estas são apenas as consequências naturais do livre mercado, já que, no ato da venda, o especulador não só adquire a ação pelo preço desejado pelo vendedor, mas também assume o risco. 

Para além disso, os benefícios para a sociedade são claros. Ao especular sobre o preço das ações XXX, os especuladores anteciparam em parte a subida dos preços, evitando o salto brusco de preço de 20€ (de 50 para 70€/ação), para 15€.

Ao reduzirem a volatilidade da bolsa de valores, a especulação beneficia o mercado como um todo, reduzindo o risco  de manter ações em carteira. Neste sentido, a especulação tende a acelerar a aproximação do preço do seu valor “fundamental”.

Inversamente, se mercado for atingido por um pânico financeiro e os acionistas quiserem desfazer-se das ações, são os especuladores quem travam este movimento baixista, adquirindo as ações como se estivessem em “dia de saldos”.  Em uma palavra, a especulação trás liquidez ao mercado.

E as bolhas financeiras?

Uma “bolha” ocorre quando os preços das ações sobem por causa da própria especulação, quando, por algum enquadramento sociológico, a especulação sobre subida de um preço torna-se numa “profecia auto-realizada” pela procura infundada por determinada(s) ação(ões).

No entanto, à medida que o preço se afasta do seu valor fundamental, embora possam ganhar a curto prazo com a tendência altista, os especuladores têm cada vez mais a ganhar com a especulação baixista (posição curta), o que servirá de abrandamento e correção da bolha. Ademais, caso os especuladores não corrijam essa anomalia do mercado, o próprio mercado irá puni-los severamente quando a bolha estourar.

No entanto, esse mecanismo de auto-correção pode ser distorcido pela intervenção do Estado, quando este procura manter os preços das ações artificialmente altos ou com políticas de por “panos quentes” às consequências da bolha. 

Tais intervenções despenalizam os investidores especuladores, inibindo o mecanismo auto-regulador do mercado e incentivando a novos investimentos irresponsáveis. Aliás, a própria a política monetária expansiva de um Banco Central pode ser responsável pela criação de novas bolhas, aumentando o endividamento público, com a consequente inflação monetária, e incentivando a investimentos em ativos desligados do seu valor fundamental ou como refúgio da depreciação monetária.. 

A História confirma, tendo as bolsas de valores como testemunhas, que o intervencionismo nos mercados financeiros, embora tentador, é uma espada de dois gumes. Pela saúde dos mercados, deixem os especuladores em paz! 

André Pires, Analista na XTB Portugal

Sobre o autor

XTB Portugal