A falta de consenso da política fiscal americana

A falta de consenso da política fiscal americana

O debate sobre a política fiscal está a decorrer nos Estados Unidos e tem tido diversos economistas no centro da discussão. Por incrível que possa parecer, esta política de Joe Biden está a ter o apoio do professor de Harvard Ken Rogoff. Há mais de uma década, ele escreveu o livro This Time is Different sobre os perigos da acumulação excessiva de dívida por parte do governo norte-americano. No entanto, para Rogoff, desta vez é verdadeiramente diferente e na sua opinião o governo dos EUA deve pedir muito dinheiro emprestado para fazer face à atual crise. Segundo ele, “hoje estamos num mundo diferente.” Em contraste, a oposição à política de Biden veio de Larry Summers, também de Harvard e ex-conselheiro dos dois últimos presidentes democratas (Clinton e Obama). Summers foi o economista que trouxe de volta a discussão sobre a “estagnação secular” e sobre a necessidade de utilizar a expansão da política fiscal para fazer face a qualquer crise económica. Agora, no entanto, o mesmo receia que Biden pretenda uma expansão orçamental demasiado elevada, criando assim o risco de uma inflação mais elevada do que aquilo que se pretende.

Diferentes cenários por isso diferentes posições

É interessante notar que tanto Rogoff como Summers acham que a política fiscal deve ser expansionista. A diferença deles é sobre a escala. Se se assumir que, antes da pandemia, a economia estava a funcionar na sua máxima capacidade e que, entretanto, cresceu cerca de 2,0% com base no crescimento do mercado de trabalho e da produtividade, então significa que estamos agora cerca de 4,5% abaixo dessa capacidade. No entanto, o plano do Presidente norte-americano é aumentar a despesa em cerca de 9,0% do PIB. Summers argumenta que, ao impulsionar a procura acima da capacidade da economia, criará uma inflação mais elevada. O economista argumenta então que, até que a vacina seja totalmente distribuída, o estímulo não ajudará indústrias como restaurantes e companhias aéreas. Assim, os gastos adicionais irão provavelmente impulsionar a procura em indústrias que já estão a ser fortes – criando por sua vez pressões inflacionistas.

Existe, no entanto, um outro cenário possível. Se a economia não estava realmente na sua plena capacidade pouco antes da pandemia e que, por isso, há espaço para mais estímulos. Concretamente, embora o desemprego fosse de 3,5% antes da pandemia, isto foi depois de uma década de diminuição da participação da força de trabalho. A mudança tecnológica e a globalização perturbaram indústrias como a indústria transformadora, levando à perda de postos de trabalho para pessoas relativamente não qualificadas. Se os trabalhadores que saíram afetados pudessem regressar ao mercado de trabalho, então a economia deveria funcionar muito abaixo dos 4,5% mencionados anteriormente. Muitos apoiantes deste plano de Joe Biden argumentam que um grande impulso da procura agregada, seguido de mais investimento em infraestruturas, poderia ser suficiente para criar uma economia capaz de absorver parte da população que saiu do mercado de trabalho, sem gerar inflação. Além disso, argumentam também que a Reserva Federal dispõe de ferramentas adequadas para combater rapidamente a inflação, caso ela surja.

Independentemente do debate, é cada vez mais claro que algo semelhante ao que Biden propôs vai aprovar o Congresso e tornar-se lei, muito provavelmente em março. Assim, estamos à beira de uma experiência muito interessante.

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Sobre o autor

Frederico Aragão Morais

Market Analyst da TeleTrade

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