Japão: O problema da economia é a incerteza

A economia japonesa acabou por entrar na recente pandemia já em recessão técnica – o seu produto interno bruto (PIB) sofreu uma contração no quarto trimestre de 2019 após a implementação de um imposto sobre o consumo em outubro, enquanto logo de seguida se deu uma outra redução da sua produção no primeiro trimestre deste ano. Como seria de esperar a situação não melhorou, e os dois trimestres seguintes acabaram por ser uma continuação do visível mau desempenho económico.

Para além disso, o eficaz programa de rastreio de contacto entre pessoas que levou a uma baixa taxa de novas infeções bem como os substanciais estímulos orçamentais e monetários deveriam colocar o Japão numa posição relativamente favorável para recuperar da atual crise. No entanto, espera-se que a recuperação seja bastante lenta, uma vez que os consumidores estão a contrair a procura interna e o fraco crescimento do resto do mundo atinge as exportações e a produção industrial local.

Forte resposta política

O método que tem sido utilizado no Japão para conter a propagação do vírus acabou por se revelar surpreendentemente eficaz. Esta forma de o prevenir faz com que a pandemia tenha claramente menor expressão quando comparada com outros países.

No entanto, para além desta boa resposta à atual crise sanitária, também a dimensão da resposta de estímulo fiscal foi impressionante. O estímulo orçamental em resposta ao coronavírus no Japão ascendeu a cerca de 40% do PIB – nos EUA, por exemplo, foi de aproximadamente 15% do PIB.

Já a política monetária do Banco do Japão (BoJ) continuou acomodatícia, maioritariamente através de compras ilimitadas de obrigações do tesouro japonesas e um aumento de aquisições de fundos transacionados em bolsa. O estímulo monetário adicional, que ascende a mais de 100 biliões de ienes ou 1 bilião de dólares, ajudou a manter os rendimentos das obrigações de curto prazo em território negativo, apesar do rápido aumento da oferta de dívida pública.

Apesar de tudo, a incerteza vai retraindo o consumo

Dadas as incríveis respostas da política fiscal e monetária à atual crise, os consumidores japoneses viram então o seu rendimento disponível a aumentar cerca de 13,4% no mês de maio face ao ano anterior. No entanto, apesar da capacidade de gastar mais, muitos consumidores estão muito mais cautelosos do que o habitual – as despesas dos consumidores para as famílias de pessoas que empregadas caíram 15,5% face ao ano anterior. Parte do declínio dos gastos está aparentemente relacionado com o estado de emergência, que restringiu as viagens e incentivou o encerramento de bares e restaurantes. Com o estado de emergência agora levantado, subsistem preocupações de que os gastos continuem a sofrer alguma contenção.

Dependente das exportações, a conta corrente é a mais afetada

Para benefício da economia e em especial da balança comercial, o maior mercado de exportação do Japão é a China, que tem vindo a ser a economia com melhor desempenho neste momento. Além disso, bem mais de metade das exportações de bens do Japão destinam-se à Ásia, que está também a superar o resto do mundo na recuperação económica da pandemia. Infelizmente, o segundo maior mercado de exportação do Japão são os Estados Unidos, que se debatem com uma onda crescente de infeções e que poderão sofrer um agravamento da recessão. As exportações japonesas estão também menos competitivas devido ao elevado valor do iene que está não só mais forte face ao dólar norte-americano, como também apreciou substancialmente face a outras moedas.

As exportações de bens e a produção de produtos estão altamente correlacionados no Japão, fazendo com que o setor de manufatura seja o mais afetado enquanto os prestadores de serviços continuam a poder beneficiar dos estímulos em curso na economia nacional.

Apesar de todos os estímulos fiscais e monetários, a persistência dos riscos para a saúde e a incerteza relativamente ao futuro são as principais causas que mantêm os consumidores cautelosos. Também é expectável que o setor de manufatura continue a ser sofrer pela fraca procura global, uma moeda forte e riscos geopolíticos existentes. No entanto, a economia japonesa deverá melhorar a partir daqui, mas o crescimento provavelmente continuará a ser moderado.

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Sobre o autor

Frederico Aragão Morais

Market Analyst da TeleTrade

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