O vírus já não é uma incerteza, mas uma preocupante certeza

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Há cerca de um mês atrás escrevi sobre a incerteza que reinava em trono do coronavírus. No fundo, o artigo referia que a dúvida era grande, mas que, até à altura, o vírus teria afetado pouco ou nada a economia real. Passado esse tempo, agora só há uma certeza: o seu impacto é real e as suas consequências são sérias.

Se há um mês atrás existiam cerca de 6000 casos e 100 óbitos em mais de 15 países, agora esses números são muito diferentes. Agora existem cerca de 80.000 casos em 30 países e mais de 2.600 mortes. Esta vertiginosa subida leva a que, um pouco por todo o mundo, estejamos em estado de alerta. A Organização Mundial de Saúde (OMS) disse estar preocupada com um aumento de casos sem ligação clara com a China e pediu por isso financiamento urgente a países com sistemas de saúde mais fracos. Também o Presidente chinês, Xi Jinping, descreveu o surto como a “maior emergência de saúde pública” desde a fundação da China comunista.

A nível fronteiriço também já se tomaram medidas. A Turquia, o Paquistão e a Arménia fecharam as suas fronteiras com o Irão, uma vez que este relatou mais infeções e mortes por consequência do vírus. Isto levou a que o vizinho Afeganistão também introduzisse restrições. Já a Áustria, perante a rápida subida do número de casos em Itália, negou a entrada de um comboio no seu país suspeitando que dois viajantes italianos pudessem estar infetados pelo vírus. 

Existem, de facto, preocupações de que o surto epidémico se torne numa pandemia, no entanto o diretor-geral da OMS descartou, para já, essa hipótese. 

Este vírus tem potencial de pandemia? Absolutamente. Já chegámos lá? Ainda não”, afirmou o diretor geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

 

Perante todas estas notícias alarmistas que foram possíveis observar durante o fim de semana, na segunda-feira os mercados experienciaram uma das mais rápidas quedas depois da crise financeira de 2008. O Dow Jones mergulhou 997 pontos, ou 3,4%, apenas na altura de abertura dos mercados. Também, o S&P 500 caiu para 3,2%, e o Nasdaq perdeu quase 4,3%. O CBOE Volatility Index (VIX), que é uma medida de volatilidade do mercado, disparou 40%.

Do lado asiático, o índice Kospi (KOSPI) da Coreia do Sul fechou a cair quase 3,9%. Com o aumento substancial do número de casos afetados pelo vírus, esse foi o seu pior dia desde outubro de 2018.

Na Europa em particular, o índice que reúne as 600 maiores empresas europeias – Stoxx 600 -desvalorizou 3,79% tendo sido essa a maior queda desde 2016. Os desenvolvimentos do vírus em Itália, levaram o seu principal índice de mercado FTSE MIB, a cair mais de 5,7% tendo já sido encerrados edifícios públicos, escolas e eventos desportivos em partes do país.

No que toca a Portugal, o PSI-20 acabou por fechar com um acentuado recuo de 3,53% – esse o seu pior dia desde 2016. Todas as empresas fecharam o dia em queda, tendo o Banco Comercial Português (BCP) sido aquele que mais contribuiu para esse decréscimo.

A verdade é que muitos indicadores ainda não começaram a incorporar os efeitos que o vírus está a ter. No entanto, o impacto negativo do vírus na economia real é agora uma certeza. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu a sua previsão do PIB mundial em 0,1%, no entanto, Kristalina Giorgieva, diretora-geral do FMI, afirmou que esta previsão é uma linha de base e não necessariamente o pior cenário. Também, um número crescente de empresas já alertou que o coronavírus as irá impedir de cumprir as metas de vendas e os lucros que tinham planeado para o primeiro trimestre do ano. 

O maior receio que cresce já nem é o impacto no primeiro trimestre do ano, mas sim de uma recessão profunda que dure até que seja encontrada uma solução que só é possível perante a existência de uma vacina. É então necessário que todos os esforços estejam focados na prevenção de uma maior propagação, bem como em estímulos económicos naqueles países que o podem fazer e claro na única solução para o problema.

Um estudo realizado pela unidade do congresso do orçamento dos Estados Unidos, revela que uma pandemia “pode produzir um impacto a curto prazo na economia mundial semelhante à recessão vivida no pós-guerra”. Uma situação minimamente semelhante seria já ela catastrófica e por isso resta-nos somente fazer tudo o que podermos para a impedir.

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Sobre o autor

Frederico Aragão Morais

Market Analyst da TeleTrade

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