Para onde nos leva a era do não convencional?

Desde a crise financeira global de 2008, muitos bancos centrais optaram por aproximar as suas taxas de juro diretoras do chamado zero-lower bond de maneira a conseguirem chegar ao seu target de inflação. O economista britânico John Hicks (1937) e o americano Paul Krugman (1981) chamam a esta condição de liquidity trap (armadilha de liquidez) – situação onde a política monetária convencional perde a sua eficácia uma vez que deixa de haver espaço para uma redução da taxa de juro. 

A partir daí, os responsáveis de diversos bancos centrais procuraram formas de contornar esta barreira. Começaram por comprar obrigações do tesouro de vários governos levando a uma redução das suas yields e consequentemente tapando uma fonte de investimento bancária (a este evento dá-se o nome de Quantitative Easing). A intenção é que os bancos canalizem os seus investimentos para a economia real através de empréstimos.

Alguns bancos centrais também reduziram a sua taxa de juro de depósito (que os bancos comerciais têm junto do seu banco central) para terreno negativo – tema que tem gerado grande controvérsia nos media tradicionais não sendo também totalmente consensual a nível académico. Pensa-se que a consequente redução das margens dos bancos, pode levar a uma subida das comissões dos depósitos bancários. Isto levou a que Lawrence Summers (2018) afirmasse que esta política pudesse ter um “efeito negativo no PIB”. No entanto, parecem ser mais os estudos que concluem um maior benefício desta iniciativa. Ben Bernanke (2019) afirma que “as taxas de juro negativas parecem ter benefícios consideráveis e custos capazes de serem geridos” e Carlo Atavilla et al. (2019) refere que mesmo aquelas empresas que são afetadas por uma taxa negativa de depósito “aumentam o seu investimento em ativos tangíveis e intangíveis diminuindo assim as suas participações em caixa de forma a evitar os custos associados”.

No caso europeu, todas estas medidas foram adotadas e acredita-se que têm servido em grande parte como um sinal de que as baixas taxas de juro vieram para ficar. Dessa forma, contribuíram para reduzir as yields de longo-prazo da maior parte dos países da zona euro facilitando também as condições de crédito. No entanto, algumas empresas zombie subsistem como consequência dessas medidas e o crescimento do crédito parece estar a diminuir. Em particular, em Portugal o efeito na descida das yields foi semelhante ao resto da zona euro. O Banco de Portugal comprou títulos de dívida pública de forma mais intensiva quando comparado proporcionalmente com a média europeia, o que levou a uma queda da taxa de juro das obrigações do tesouro a 10 anos de aproximadamente 5% em 2014 para os 0,39% atuais.

Os benefícios destas medidas têm sido marginalmente menores ao longo do tempo e a atual conjuntura geopolítica vivida nos últimos anos tem contribuído para que o desejado target de inflação delineado pelo Banco Central Europeu (BCE) de abaixo, mas perto de 2%, continue ainda longe de ser atingido.

Começou-se então a falar de novas alternativas e foi aí que o termo de Helicopter Money surgiu com maior frequência. Esta política é de fácil explicação – sendo a procura demasiado baixa, o banco central poderia imprimir dinheiro e depositá-lo dentro das carteiras de cada cidadão europeu. Isto aumentaria o dinheiro disponível e consequente, a procura, o consumo e a inflação. Olivier Blanchard (2019) aponta, no entanto, diversas barreiras à sua implementação. Para o ex-economista chefe do FMI, Helicopter Money é uma forma de contornar regras europeias de consolidação orçamental e alguns países europeus não estariam muito a favor desse cenário. Depois disso, existem várias questões por responder: Quem daria informação das famílias aos bancos centrais? Precisaria de aprovação em parlamento? O BCE tem a capacidade para o fazer? Todos os países receberiam a mesma quantia? Não ficaria o BCE mal visto com uma consequente redução do seu balanço?

No fundo, é pouco provável vermos grandes avanços relativamente à diversidade de medidas não convencionais já impostas. Talvez apenas perante uma grande crise fosse possível observar Helicopter Money na Europa. Seria certamente mais fácil que países com alguma folga orçamental utilizassem uma política fiscal mais expansiva de forma a contribuir para um mais próspero crescimento.

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    Sobre o autor

    Frederico Aragão Morais
    Market Analyst da TeleTrade

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