Zona Euro: Uma economia a abrandar com os mercados a corresponder

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Frederico Aragão Morais

Market Analyst da TeleTrade Portugal

Depois de a economia mundial ter abrandado acentuadamente nos últimos dois trimestres de 2018, foi possível observar um fraco crescimento da atividade económica neste último ano. 

A zona euro acabou por ser também contagiada por esta desaceleração económica mundial, marcada por tensões geopolíticas e pela incerteza provocada pelo Brexit ao longo de todo o ano. Como consequência, o seu crescimento veio a abrandar e a ser revisto em baixa, esperando-se um aumento de 1,1% no valor anual do PIB para este ano de 2019.

Esta instabilidade política e comercial levou a uma falta de vontade das empresas em investir. O sector industrial, por exemplo, esteve em recessão durante todo o ano e apenas cerca 20% do crescimento do PIB é explicado pelo investimento e pelo comércio.

Já o consumo privado foi a principal variável responsável por combater uma desaceleração que poderia ter levado a uma recessão. Responsável por mais de dois terços do crescimento da zona euro, o constante aumento do consumo deve-se também à subida sustentável do emprego. O desemprego caiu de 9,5% em 2017 para 7,5% em 2019 tendo sido também acompanhado por salários a crescer a uma taxa de 2,6%. Apesar destes indicadores estarem a corresponder, o aumento das poupanças das famílias e a queda nas compras de bens duradouros sugerem uma possível diminuição futura do crescimento do consumo.

No que toca à política macroeconómica, o Banco Central Europeu (BCE) tem mantido a sua política monetária expansiva estando ainda o target de inflação de um valor abaixo, mas perto de 2% longe de ser atingido – essa taxa é atualmente de 1%. Pensa-se que a non-accelerating rate unemployment (NAIRU) – consistente com uma taxa de inflação estável perto dos 2% – possa estar compreendida entre os 5-7%. Desse modo, existe ainda margem para uma diminuição do desemprego podendo isso levar (de acordo com a curva de Phillips) à desejada subida da inflação e consequente aproximação da economia da zona euro do seu potencial. 

Normalmente, com juros baixos a economia real tende a responder, e apesar das tensões geopolíticas terem dominado as atenções ao longo de todo o ano, os investidores procuraram o mercado acionista como fonte de investimento. O índice europeu Stoxx 600 teve o seu melhor ano desde 2009 e o terceiro melhor desde há duas décadas com um crescimento de 24%. As medidas não convencionais do BCE têm também levado a uma descida contínua das yields do mercado obrigacionista. No entanto, uma maior diversificação em ativos de refúgio foi aparentemente procurada com o preço do ouro a ter a maior subida dos últimos 9 anos com um crescimento de 15%. 

No caso português, a atividade económica permaneceu dinâmica no primeiro semestre do ano. O consumo privado beneficiou de um mercado de trabalho cuja procura de trabalhadores por parte das empresas é superior à oferta. Consequentemente, os salários cresceram e com a uma inflação mais baixa, o rendimento disponível aumentou.

A procura interna também foi impulsionada por um forte investimento empresarial. O crescimento das exportações abrandou ligeiramente e a confiança deteriorou-se no segundo semestre do ano, refletindo a incerteza crescente relativamente às tensões comerciais. No entanto, indicadores de confiança dos serviços, consumidores e construção estabilizaram. Com isto, prevê-se que o crescimento económico seja de 1,9% em 2019.

A bolsa de valores portuguesa acabou por seguir a tendência europeia de crescimento, tendo o índice PSI-20 subido cerca de 11% em 2019 – um desempenho positivo, mas abaixo da média europeia. Em Lisboa, dois terços das cotadas fecharam o ano com sinal positivo, com oito empresas a ganharem mais de 10%.

Existe assim otimismo de que este bom desempenho dos mercados veio para ficar, pelo menos no curto-prazo.  No entanto, apesar da votação do Brexit a 20 de dezembro ter reduzido a incerteza, as difíceis negociações que se adivinham entre a União Europeia e o Reino Unido merecem atenção especial por parte dos investidores. Existem também reservas relativamente ao fluxo de trocas comerciais global, podendo o esperado alívio das tensões geopolíticas, contribuir para que a zona euro enfrente menos desafios.

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Frederico Aragão Morais

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