Motivos pelos quais revimos em baixa as nossas previsões para o crescimento global

Antevisão: É a primeira vez que baixamos as nossas expetativas para o crescimento global desde 2016. Seguem-se os motivos.

Artigo principal: Embora o crescimento se mantenha forte, existem diversos fatores que, na nossa opinião, vão ter um impacto negativo no crescimento global em 2018 e em 2019.

Por conseguinte, baixámos as nossas previsões pela primeira vez em quase dois anos: de 3,5% para 3,4% em 2018 e de 3,3% para 3,2% em 2019. Entretanto, aguarda-se uma subida da inflação global e aumentámos as nossas previsões para 2018 de 2,4% para 2,7%, com implicações para a política monetária em todo o mundo.

Figura 1: Previsão da Schroders para o crescimento do PIB real em 2018 e 2019

Um início de ano fraco

O ano não teve um início particularmente forte na maioria das economias. Na Europa, um inverno rigoroso, um surto de gripe, as greves nos transportes e a data da Páscoa parecem ter afetado os números relativos ao crescimento.
Por seu lado, nos EUA, o crescimento também abrandou. O crescimento tinha recebido um impulso pontual no final do ano anterior, com a reconstrução após a época de furacões e o investimento em substituições, mas quando este este impacto se esbateu, recuou no primeiro trimestre de 2018.

Noutras regiões, algumas das economias de mercados emergentes também assistiram a um abrandamento dos dados do primeiro trimestre, nomeadamente a Rússia e o Brasil.

Embora muitos destes fatores se devam desvanecer agora, ajudando a atividade a normalizar no atual trimestre, estamos cientes de que os principais indicadores apresentam sinais contraditórios quanto a uma recuperação do crescimento no segundo trimestre. Além disso, a subida dos preços do petróleo e as tensões comerciais deverão contribuir para um abrandamento do crescimento.

Preços mais altos do petróleo

Os preços do petróleo subiram significativamente desde o início do ano por causa dos cortes de produção da OPEP e da provável reposição das sanções ao Irão no seguimento da cessação do acordo nuclear por parte do presidente Donald Trump. Isto irá afetar as despesas dos consumidores.

Nos EUA, por exemplo, a subida dos preços do petróleo custará cerca de 60 mil milhões de dólares aos consumidores. Obviamente que os consumidores estão já a poupar 120 mil milhões de dólares graças aos cortes fiscais aprovados pelo presidente Trump, mas isto significa que metade das suas poupanças se destinará a pagar a gasolina mais cara. Para quem se encontra entre os 20% com rendimentos mais baixos, as poupanças fiscais não chegam para contrabalançar o aumento dos preços da gasolina. De uma forma geral, as despesas reais de consumo deverão ser por isso mais baixas.

A pergunta que se impõe é se os trabalhadores poderão recuperar algum rendimento através de aumentos salariais. Até à data, os salários têm permanecido excecionalmente moderados, mas alguns dados recentes sugerem que isto poderá estar a mudar.

Entre os grandes mercados emergentes, o crescimento na Índia também deverá ser afetado pelo aumento dos preços do petróleo, devido à fatura da importação, enquanto a Rússia deverá ser beneficiada, ainda que este benefício seja limitado pelo impacto das sanções dos EUA.

Negociações comerciais tensas

Recorde-se que os EUA e a China trocam atualmente ameaças sob a forma da imposição de tarifas aduaneiras no valor de 50 mil milhões de dólares. Embora afete apenas uma pequena parte do comércio de cada país, e ainda menor do PIB (menos 0,5% no caso da China), o impacto sobre o crescimento poderá ser maior, uma vez que é improvável que a disputa termine com apenas uma ronda de tarifas aduaneiras.

A incerteza sobre as futuras relações comerciais deverá afetar as decisões das empresas, particularmente as exportadoras, no que se refere a contratar e investir. Em conjunto com determinadas medidas políticas, isto leva a uma revisão em baixa do crescimento chinês em 2019 (de 6,5% para 6,4%) que, por sua vez, é responsável por parte do ligeiro recuo nas expetativas de crescimento global em 2019.

Aumento da inflação

Os preços mais altos do petróleo levarão a um aumento da inflação a nível global. Mesmo nos EUA, prevemos que a inflação subjacente aumente ao longo dos próximos dois anos.

Na Europa, a combinação de preços mais altos da energia e de uma taxa de câmbio USD/euro mais baixa significa que a inflação também irá aumentar.

Nos mercados emergentes, a inflação permanece historicamente baixa, mas está a começar a subir no Brasil, Índia e Rússia.

Figura 2: Previsões da Schroders para a inflação em 2018 e 2019 (índice de preços no consumidor)

O que significa isto em termos de política monetária?

Na maioria do mundo desenvolvido, prevemos uma política monetária mais restritiva. Nos EUA, antevemos que a Reserva Federal aumente as taxas de juro mais três vezes este ano e duas vezes no próximo ano, de modo a que a taxa Fed funds se fixe nos 3% em meados de 2019.

O Banco Central Europeu (BCE) deverá pôr fim aos estímulos quantitativos no 4.o trimestre deste ano e aumentar as taxas três vezes em 2019, encerrando uma era de taxas negativas na zona Euro. O Banco de Inglaterra deverá manter-se em suspenso até novembro, altura em que deverá existir uma maior clareza sobre o resultado das negociações do Brexit.

Nos mercados emergentes, esperamos que o banco central do Brasil evite mais estímulos e dê início a um ciclo de subidas graduais no final de 2019. Na Índia antecipamos uma restritividade ligeiramente mais rápida, devido à dependência económica do petróleo. Prevemos duas subidas este ano, com a primeira a ocorrer provavelmente em junho, elevando as taxas para 6,5%, e mais duas subidas em 2019.

Pelo contrário, uma inflação mais baixa e os receios relacionados com a liquidez significam que a China caminha noutra direção, com o Banco Popular da China (BPdC) a aliviar o rácio de reservas mínimas. Este define o montante mínimo de reservas obrigatórias que os bancos do país devem manter e é utilizado pelo banco central como uma forma de combater a inflação. Uma descida das taxas na China também parece garantida para 2019, com o crescimento a abrandar ainda mais devido a um enfraquecimento do sentimento decorrente das tensões comerciais.

Face a esta conjuntura, o dólar dos EUA deverá apreciar-se ainda mais a curto prazo, antes de enfraquecer em 2019 à medida que os bancos centrais de outros países derem início à uma maior restritividade monetária.

Expansão por agora, mas as previsões encaminham-se para a estagflação

Continuamos a prever mais um ano de expansão na economia mundial, mas à margem as previsões vão mais no sentido da estagflação, com maior inflação e menor crescimento do que anteriormente se previa. Isto é resultado do aumento dos preços do petróleo e da crescente ameaça de guerras comerciais.

1 Dados de mercado em 24/05/2018. A previsão anterior refere-se a fevereiro de 2018. Os números consensuais da inflação para os mercados emergentes referem-se ao final do período e não são diretamente comparáveis. Mercados desenvolvidos: Austrália, Canadá, Dinamarca, Zona Euro, Israel, Nova Zelândia, Singapura, Suécia, Suíça, Reino Unido e EUA. Mercados emergentes: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru, China, Índia, Indonésia, Malásia, Filipinas, Coreia do Sul, Rússia, República Checa, Hungria, Polónia, Roménia, Turquia, Ucrânia, Bulgária, Croácia, Letónia e Lituânia.
Talking Economics tem por base o Schroders Economic and Strategy Viewpoint, produzido pela Schroders Economics Team: Keith Wade, Economista-Chefe, Azad Zangana, Economista e Estratega Sénior para a Europa, Craig Botham, Economista de Mercados Emergentes e Piya Sachdeva, Economista do Japão.
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Publicado por: Schroder Investment Management Limited, Sucursal em Espanha. Registada na Comisión Nacional del Mercado de Valores (CNMV) de Empresas de Serviços de Investimento do Espaço Económico Europeu, com sucursal em Espanha com o número 6. As previsões indicadas no documento são o resultado de modelação estatística, baseada numa série de pressupostos. As previsões estão sujeitas a um elevado nível de incerteza relativamente a fatores de mercado e económicos futuros que podem afetar o desempenho futuro real. As previsões são fornecidas para fins informativos à data de hoje. Os nossos pressupostos podem mudar materialmente com alterações nos pressupostos subjacentes que possam ocorrer, entre outras coisas, uma vez que as condições económicas e de mercado se alteram. Não assumimos qualquer obrigação de lhe fornecer atualizações ou alterações a estes dados, visto que os pressupostos, as condições económicas e de mercado, os modelos ou outros fatores se alteram.

Sobre o autor

Juan Diego Quilez
Gestor do Rankia Portugal

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