O que temer de uma “Guerra comercial”?

guerra comercial

Por André Pires, analista XTB

Falarmos de “guerra comercial” e das suas consequências, implica, necessariamente, falarmos primeiro do conceito que está por detrás das tensões comerciais, isto é, o malfadado “défice comercial”.

Este conceito, tantas vezes referido nos tweets do presidente dos EUA como a grande injustiça a ser corrigida por um acordo comercial, têm uma conotação negativa sem fundamento.

tweet Trump

De facto, no comércio, ambas as partes saem sempre vencedoras (razão pela qual a própria expressão “guerra comercial” é contraditória. Não deveríamos antes chamar-lhe de guerra anti-comercial?) . 

As transações comerciais implicam um comprador e um vendedor. Uma parte entra com o dinheiro, e outra com o produto/serviço, e até onde se sabe, essas trocas dão-se de forma completamente livre e voluntária, ficando ambas as partes com aquilo que procuravam.  

Um défice na balança comercial acontece quando uma das partes compra mais à outra do que aquilo que lhe vende. No caso Sino-americano, se os americanos têm um défice comercial com a China, é porque procuram os produtos chineses com mais afinco do que os chineses procuram os deles. Da mesma forma, qualquer um de nós tem um défice comercial para com o mercearia da nossa rua, sem que haja nisso algum problema intrínseco.

Se considerássemos como perdedor aquele que compra e vencedor aquele que vende, não existiriam sequer trocas comerciais. E aí está o perigo de uma guerra comercial.

Se as duas maiores economias iniciam uma retaliação sem fim de taxas e tarifas às importações, criar-se-ão barreiras artificiais ao livre comércio entre eles. A tendência será então a de que os produtores procurem escoar os seus produtos noutras economias, para evitar os prejuízos.

Esse aumento da oferta, por sua vez, entra em competição com os produtos das indústrias desses países importadores, com o consequente impacto na economia local. Para defenderem-se, a tentação é a de criar políticas protecionistas, isto é, mais taxas e tarifas, pondo em risco o comércio global.

Este cenário, aparentemente catastrófico, não seria novidade na História recente. Basta olharmos os anos 30, aquando da aplicação da tarifa Smoot-Hawley, sancionada pelo então presidente Herbert Hoover, que visou milhares de produtos importados. Países como o Canadá e Itália retaliaram com tarifas sobre as importações americanas, o que desencadeou guerras comerciais por todo o mundo, num efeito bola de neve que desembocou, não só no agravamento da depressão económica atravessada naquela época, mas num despotismo que serviu de trigger à Segunda Guerra Mundial.

Não obstante esta memória da História recente, creio que a retórica de Trump, longe de mostrar ingenuidade, tem sido usada pelo presidente como trunfo de re-negociação de acordos comerciais. De facto, se é possível que alguns lhe neguem a aptidão para o cargo de presidência, não lhe queiram também negar ser um homem de negócios. 

Ao contrário do contexto histórico de Hoover, a economia americana tem usufruído de uma lufada de ar fresco desde o início do mandato de Trump, dando-lhe espaço de manobra para negociar e usar a arte do bluff. E o bluff da guerra comercial tem força precisamente porque é uma ameaça real e temível.

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