Outlook 2019: Ações Europeias

As ações europeias podem permanecer inconstantes em 2019, mas isso pode abrir oportunidades para os investidores que buscam empresas subvalorizadas.

  • Depois de um ano de 2018 fraco, as ações europeias estão pouco valorizadas, os balanços parecem saudáveis ​​e vemos o rendimento em dividendos como atrativo.
  • Setores como hardware de tecnologia e automóveis têm preços recessivos, mas a economia continua a expandir-se.
  • O retorno da inflação é uma pressão estrutural que poder beneficiar setores como as telecomunicações e o financeiro.

Rory Bateman, Head of UK and European Equities:

O quadro económico global para 2019 parece mais desafiador à medida que nos aproximamos das etapas finais deste ciclo económico. O mercado de ações já teve em conta a desaceleração, levando a retornos dececionantes na maioria das regiões em 2018.

Acreditamos que a economia da Europa deve ter um crescimento acima da tendência no próximo ano, dada a recuperação tardia do pós-crise, em comparação com o resto do mundo e a contínua expansão do consumo interno. Os investidores podem ter acesso às ações europeias com valores mínimos de cinco anos (ver gráfico abaixo) após o declínio do mercado ocorrido em 2018.

Nos últimos meses, observamos uma maior volatilidade global devido a guerras comerciais, aumento das taxas de juros nos EUA e a retirada progressiva do quantitive easing na Europa.

Além disso, a Alemanha, em particular, cresceu abaixo das expectativas. Isso deve-se em grande parte às mudanças nos regulamentos de emissões de diesel para a indústria automóvel. No entanto, a nossa perceção é de que a questão industrial alemã é temporária, portanto, vai ajudar a garantir um crescimento positivo dos lucros corporativos em 2019 (ver gráfico abaixo).

O gráfico mostra um crescimento positivo nos lucros para 2018 e expectativas realistas para 2019.

 

Nós frequentemente discutimos o PER entre os EUA e a Europa. Neste momento em particular, o desconto europeu do PER (Preço da ação / lucros ) parece extremo.

Embora as empresas europeias não tenham beneficiado da ventajosa recompra de ações registada nos EUA, o rendimento de dividendos sobre ações europeias é de 3.7% (MSCI Europe, em 31 de Outubro de 2018) e os balanços globais das empresas têm uma saúde evidente.

O gráfico abaixo mostra o múltiplo PER atual dos EUA versus mercado europeu (linha azul); os EUA estão a negociar com um prémio para a Europa – perto de picos históricos. A linha laranja ilustra o significativo mau desempenho do mercado europeu em comparação com o dos EUA (ambos em USD).

É expectável que as ​​incertezas políticas na Europa apresentem aos investidores  aoportunidade de comprar ações a níveis atraentes. O sentimento internacional em relação às ações europeias é atualmente extremamente cético, dadas as preocupações sobre o Brexit e o orçamento italiano. A história do mercado de ações mostra que estes momentos de incerteza  podem ser uma boa oportunidade para investir. Alguns investidores podem, portanto, considerar a possibilidade de fazer uma alocação tática, de curto prazo, em ações europeias.

Dito isto, o timing é sempre difícil. A nossa experiência reside na identificação de empresas subvalorizadas, que  possam oferecer  retornos significativos no médio e longo prazo. Atualmente, estamos a explorar um número elevado de ações interessantes, dadas as avaliações convincentes e os níveis elevados de volatilidade.

O valor dos investimentos e a receita que deles decorre podem cair ou subir e os investidores podem não recuperar os valores originalmente investidos.

Martin Skanberg, Fund Manager, European equities:

Há nuvens no horizonte económico à medida que nos aproximamos de 2019 e isso resultou numa volatilidade exagerada do mercado. O posicionamento nos mercados tornou-se muito defensivo, com os investidores a favorecer a segurança de setores como commodities, em detrimento daqueles ligados de forma direta ao ciclo económico, como os industriais.

Em tempos de medo, é pouco consensual favorecer esses setores e ações sensíveis economicamente, mas são esses os investimentos que achamos que, se escolhidos corretamente, têm a capacidade de superar o máximo em qualquer recuperação. Estamos à procura de áreas do mercado onde vemos valor e também sensibilidade ao ciclo económico.

Por exemplo, setores como o de tecnologia ou o setor automóvel são avaliados em níveis que indicam que estamos numa recessão branda. No entanto, a economia dos EUA está a ter um bom desempenho e a economia da zona do euro continua a expandir-se, embora de forma mais lenta do que no início de 2018. O atual posicionamento de mercado muito defensivo poderia rapidamente se desenrolar.

Ao mesmo tempo, procuramos ações que possam gerar crescimento e/ou aumentar o preço das ações, independentemente do ambiente geral do mercado. Isso leva-nos a concentrar nas histórias de mudanças corporativas. Exemplos incluem empresas que estão a ganhar versus os seus pares, ou onde a estrutura corporativa é excessivamente complicada e, portanto, o mercado dá à empresa uma avaliação inferior. Tais oportunidades são sempre interessantes, desde que se sinta que existe uma estratégia credível para desbloquear esse valor e que o preço da ação já não reflete a oportunidade.

James Sym, Fund Manager, European equities:

Os investidores enfrentam um ambiente de mercado em mudança à medida que nos aproximamos de 2019 e uma característica fundamental disso é o regresso da inflação. A realidade diz-nos que muitas empresas europeias estão a enfrentar um mercado de trabalho cada vez mais apertado, em que precisam de pagar salários mais elevados para atrair e manter funcionários. Em paralelo, o subinvestimento provocado pela crise financeira global, combinado com o crescimento económico estável, diz-nos que muitas empresas  atingiram o limite da sua capacidade de produção e precisam agora de investir em novas capacidades.

Ambos os fatores são inflacionários e podem pesar na decisão sobre  a escolha das empresas que achamos que se vão sair bem no ambiente atual.

Uma empresa ainda pode crescer se não conseguir recrutar novos funcionários ou uma nova capacidade?

Nós achamos que os investidores vão procurar empresas diferentes à medida que a inflação é incorporada.

O setor financeiro podem beneficiar de um novo ambiente inflacionário, porque pode reavaliar a taxa que cobra sobre empréstimos e outros produtos. As receitas devem subir mais rapidamente do que os custos com pessoal, e as empresas financeiras podem beneficiar do crescimento do volume à medida que a economia continua crescer.

Dentro do setor financeiro, preferimos seguradoras, pois continuam a ser mais rentáveis.

O setor de telecomunicações é outro que deve beneficiar de uma inflação mais alta. A infraestrutura já está lá e o aumento dos salários significa que os consumidores podem suportar preços mais altos. Da mesma forma, os setores cíclicos do consumidor – como os fabricantes de automóveis – são atualmente muito pouco valorizados e podem beneficiar de um consumidor mais confiante em 2019.

Nós vemos este regresso da inflação como um fator estrutural natural – o resultado de anos de subinvestimento e de pressão sobre os salários. O importante, como investidores, é identificar esse ambiente em mudança antes que se torne óbvio para todo o mercado.

 

Sobre o autor

Juan Diego Quilez
Gestor do Rankia Portugal