Onde investir num contexto pós-pandemia?

Onde Investir num contexto pós-pandemia

Artigo da autoria de Francisco Quadrio Monteiro, Multi-Asset Account Manager no BiG – Banco de Investimento Global.

Vivemos sem qualquer tipo de dúvida um cenário macroeconómico sem precedentes. Depois de experienciarmos umas das maiores crises económicas da história, que se deveu a fatores exógenos à própria economia, deparamo-nos numa situação em que o chamado Helicopter Money proposto por Milton Friedman em 1969 acabou por ser implementado na maior economia do mundo.

Ninguém sabe com 100% de certeza como é que esta espécie de experiência económica irá se desenrolar, particularmente num contexto em que os aumentos de liquidez implementados pelos bancos centrais atingiram níveis sem precedentes. No entanto, olhando para a história podemos encontrar pistas. É amplamente consensual que as pressões inflacionistas estarão à espreita, assim que as economias mundiais finalizarem a sua trajetória de recuperação pós-covid. Jerome Powell admitiu isso na última reunião da FED, referindo que não está preocupado com níveis superiores de inflação, e que caso estes aconteçam, estes deverão ser “temporários”. A sua prioridade será a recuperação do mercado laboral, comunicando assim que as taxas de juro deverão permanecer inalteradas até 2023. Com os mercados acionistas em máximos históricos, potenciais pressões inflacionistas à porta que deverão continuar a pressionar o valor do nosso dinheiro, e um potencial para a economia mundial apresentar um boom sem precedentes (a Goldman Sachs estima crescimento de 8% em 2021 para os EUA), onde fará sentido investir para o remanescente de 2021?

Antes de analisarmos esta questão em detalhe, é importante referir que a estratégia de investimento de cada um deve fazer face ao perfil e aos objetivos de casa pessoa, sendo que muitas vezes aquilo que se passará no curto prazo acaba por ter pouca relevância num contexto de médio-longo prazo.

Olhando para o mercado obrigacionista, apesar das subidas das taxas de juro em alguns mercados emergentes, esta classe de ativos deverá continuar num panorama desfavorável, tal como o admitiu Warren Buffett na mais recente carta que escreveu aos acionistas da Berkshire Hathaway. Não descartar, no entanto, o papel importante das obrigações num portefólio diversificado, particularmente para investidores altamente sensíveis a aumentos de volatilidade.

Observando o mercado acionista, a primeira impressão será descartar quaisquer oportunidades de investimento, visto que o mercado se encontra praticamente em máximos históricos. Acaba por haver uma sensação natural de que terá de haver uma correção dada a descorrelação que existe neste momento entre o mercado e a economia. A verdade é que olhando para a história do índice americano S&P500 dos últimos 70 anos, regra geral, máximos históricos precederam novos máximos históricos.

Dito isto, observamos a uma autêntica viragem de 180 graus naquela que tinha vindo a ser a tendência de 2020, a outperformance de tech growth face a value. Desde o anúncio da vacina que o ímpeto e o momentum do mercado mundou para o value em detrimento de tech e growth, com particular destaque para o setor financeiro. O único setor do índice americano que ainda não recuperou na sua totalidade as quedas do crash Covid de 2020 é o setor imobiliário. Títulos relacionados sobretudo com imobiliário não comercial e com uma situação financeira sólida poderão ser uma oportunidade interessante ainda de ser considerada. Para investidores mais defensivos, uma série de empresas ainda apresentam dividend yields atrativas para quem quiser privilegiar rendimento em detrimento de crescimento na sua carteira, particularmente nos setores energéticos e financeiros. Para quem privilegiar crescimento, a recente correção no Nasdaq proporciona uma entrada a preços mais apelativos em títulos e empresas que serão claros vencedores da economia pós-covid, centrada numa vertente cada vez mais digital. Empresas cuja procura dos seus produtos e serviços apresente uma estrutura mais rígida também poderão ser winners num potencial cenário de inflação. Por último matérias-primas e empresas relacionadas deverão continuar a ter bom desempenho em 2021. Ouro enquanto ativo de refúgio e proteção contra a inflação fará sempre sentido numa carteira diversificada. Prata também poderá ter bom desempenho depois das subidas em 2020, caso uma potencial subida do ouro faça com que o rácio ouro/prata volte a subir para níveis próximos dos 100, assistindo depois a uma potencial reversão para a média.

Independentemente das suas escolhas enquanto investidor, certifique-se sempre que estas vão de encontro aos seus objetivos, fazendo sempre uma diversificação racional para que não haja demasiado risco e concentração na sua carteira.

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Sobre o autor

Francisco Quadrio Monteiro

Multi-Asset Account Manager no BiG – Banco de Investimento Global.

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