Os fracos fundamentos de um possível mercado de alta

Na semana passada foi possível observar uma recuperação notável dos principais índices acionistas mundiais, onde o S&P500 subiu 18% tendo a melhor semana desde 2008, o Dow Jones teve os melhores três dias desde a 1933 e o português PSI-20 teve a sua maior subida numa década. A questão que se tem posto é se já atingimos o ponto mais baixo daquele bear market e se vamos dar assim início a um novo bull market ou ainda se piores dias ainda viram.

A motivar o sentimento de apetite pelo risco estiveram os estímulos monetários e fiscais de vários governos e, em particular, a aprovação do Congresso norte-americano do pacote orçamental proposto pela administração de Donald Trump e a decisão do Banco Central Europeu (BCE) de deixar de aplicar os 33% de auto-limite à compra de obrigações de dívida pública.

No entanto, a variável mais importante é a duração final da pandemia e o levantar das medidas de contenção para restringir a sua propagação. E como isso é ainda pouco previsível, ninguém sabe realmente as suas reais consequências económicas. O que está contido no preço a que os índices estão a cotar não são os possíveis efeitos desta crise, mas sim a maneira como o mercado se sente acerca deles. Na realidade, é muito difícil projetar as futuras receitas de uma empresa quando nem elas fazem ideia de quão serão afetadas. 

Neste momento, os fundamentos acabam por ter pouca importância uma vez que são de pouca qualidade, mas existe a expectativa de que os mercados recuperarão mais rápido do que a economia levando então a estes dias de maior confiança. A Goldman Sachs estima que o S&P 500 terminará ainda este ano de 2020 com mais de 20% dos atuais níveis de mercado, mas que ainda existirão quedas nos mercados antes de isso acontecer. Também o Volatility Index (VIX) continua em níveis bastante altos contribuindo para a dúvida existente relativamente à consistência de um mercado de alta.

O pânico que levou à venda das ações parece ter acalmado como consequência das medidas de estímulo, mas o foque dos mercados continua a ser as notícias que nos invadem todos os dias e a sua inerente incerteza dá-nos também a segurança de dizer que é difícil que não existam mais quedas a partir daqui. Apesar disso, é normal pensar-se que com todos os estímulos que se esperam, a perceção que se tem do futuro seja agora menos drástica.

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Sobre o autor

Frederico Aragão Morais

Market Analyst da TeleTrade

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