A corrida pelo cobre já começou: haverá oferta suficiente até 2035?

Cobre, níquel e alumínio estão no centro da próxima grande corrida por matérias-primas. Com a IA, a eletrificação e a transição energética a impulsionarem a procura, a grande questão é: haverá oferta suficiente até 2035?

A transição energética, a eletrificação da economia, a expansão das redes elétricas, os veículos elétricos e, mais recentemente, o crescimento dos centros de dados e da inteligência artificial estão a aumentar a necessidade de metais industriais como cobre, níquel e alumínio.

O problema é que aumentar a procura é muito mais rápido do que aumentar a oferta.

Uma nova mina pode demorar anos (por vezes mais de uma década) entre a descoberta de um depósito, o licenciamento, o financiamento, a construção e o início da produção. Ao mesmo tempo, a qualidade de alguns depósitos minerais está a diminuir e os projetos enfrentam custos mais elevados, restrições ambientais e uma crescente concentração geográfica da produção.

É precisamente esta combinação que está a colocar os metais industriais novamente no centro da economia mundial.

As projeções reunidas pela Coface mostram que, até 2035, a procura poderá superar a oferta de cobre, níquel, alumínio e zinco, embora a dimensão desse desequilíbrio varie significativamente entre os diferentes metais.

E o cobre destaca-se por um motivo particular: está presente praticamente em todas as grandes tendências de eletrificação da próxima década.

Cobre, níquel e alumínio: quanto poderá faltar até 2035?

As projeções para 2035 ajudam a perceber a dimensão do desafio:

Fonte: Coface, “Industrial metals: Back to the future (cycle)”

O dado mais importante não é apenas que possa existir um défice, mas que cobre, níquel e alumínio enfrentam simultaneamente um crescimento estrutural da procura e limitações para aumentar rapidamente a produção.

O aço apresenta uma situação diferente: nas projeções utilizadas pela Coface, a oferta em 2035 seria suficiente para satisfazer a procura, isto mostra que não existe um problema generalizado de falta de metais, o desequilíbrio está concentrado sobretudo nos materiais mais expostos à eletrificação e às novas tecnologias.

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Porque está a aumentar tanto a procura de metais industriais?

Durante décadas, a procura de metais como cobre, alumínio e níquel esteve fortemente ligada à construção, à indústria, às infraestruturas e ao crescimento económico. Essas utilizações não desapareceram, o que mudou foi a chegada de uma nova camada de procura.

Hoje, redes elétricas, energias renováveis, baterias, veículos elétricos, centros de dados e infraestruturas digitais competem pelos mesmos metais que continuam a ser necessários na construção, nos transportes e na indústria tradicional.

A Agência Internacional de Energia destaca precisamente esta transformação: as tecnologias associadas à energia limpa tornaram-se uma das componentes de crescimento mais rápido da procura mundial de minerais críticos. O cobre é particularmente importante para redes elétricas e praticamente todas as tecnologias relacionadas com eletrificação, enquanto o níquel desempenha um papel importante em determinadas químicas de baterias.

A inteligência artificial acrescentou entretanto outro fator: um centro de dados não é apenas um conjunto de servidores. Precisa de eletricidade, transformadores, sistemas de arrefecimento, cablagem, equipamentos elétricos e novas ligações à rede e tudo isso exige metais.

O Banco Mundial identifica atualmente a expansão dos centros de dados relacionados com inteligência artificial, juntamente com as energias renováveis, redes elétricas e veículos elétricos, como uma das fontes que estão a sustentar a procura de metais industriais.

Cobre: o metal essencial para eletrificar a economia

Entre todos os metais industriais, o cobre é provavelmente aquele em que a tensão entre procura e oferta merece maior atenção porque ele é utilizado em cabos elétricos, motores, transformadores, edifícios, redes de distribuição, sistemas de energia renovável, equipamentos eletrónicos e veículos.

A razão é simples: poucos materiais conseguem combinar tão bem condutividade elétrica, durabilidade, maleabilidade e capacidade de reciclagem e quanto mais eletrificada for uma economia, mais cobre tende a necessitar.

Porque poderá faltar cobre?

Segundo as projeções utilizadas pela Coface, a oferta mundial poderá atingir cerca de 31,9 milhões de toneladas em 2035, enquanto a procura poderá situar-se entre 33,4 e 38,3 milhões, no cenário mais exigente, isso representa uma diferença de aproximadamente 6,4 milhões de toneladas.

Mas o desafio não está apenas na quantidade de cobre que existe no planeta, está também na capacidade de o extrair economicamente e colocá-lo no mercado a tempo.

As novas minas enfrentam períodos de desenvolvimento longos, custos de capital elevados, processos de licenciamento complexos e, em alguns casos, uma deterioração do teor do minério.

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A Agência Internacional de Energia chegou a uma conclusão semelhante ao analisar os projetos atualmente anunciados: no seu Global Critical Minerals Outlook, estima que o fornecimento proveniente das minas existentes e dos projetos anunciados poderá ficar cerca de 30% abaixo das necessidades de cobre em 2035, considerando o seu cenário de políticas atuais.

A IEA aponta como obstáculos precisamente a redução do teor dos minérios, os custos crescentes dos projetos, a menor descoberta de novos recursos e os longos prazos necessários para desenvolver novas minas.

Ou seja: o problema do cobre não parece ser falta de procura, mas sim a velocidade a que será possível criar nova oferta.

Níquel: procura das baterias, mas uma oferta mais difícil de prever

O níquel apresenta uma situação diferente.

Historicamente, a principal utilização do metal esteve associada ao aço inoxidável. No entanto, algumas tecnologias de baterias de iões de lítio utilizam níquel para aumentar a densidade energética, tornando-o também relevante para a indústria dos veículos elétricos.

Nas projeções apresentadas pela Coface, esta pressão é evidente: a oferta em 2035 seria de aproximadamente 4,4 milhões de toneladas, enquanto a procura poderia atingir entre 6,7 e 7,4 milhões.

À primeira vista, seria um dos maiores desequilíbrios relativos entre os metais analisados, mas o níquel mostra também porque é importante não tratar previsões de longo prazo como certezas.

A produção aumentou rapidamente nos últimos anos, sobretudo graças à expansão da Indonésia. Além disso, a evolução tecnológica das baterias pode alterar significativamente a quantidade de níquel necessária no futuro.

A própria IEA apresenta atualmente uma perspetiva menos restritiva do que para o cobre: se os projetos planeados entrarem efetivamente em produção dentro dos calendários previstos, a oferta de níquel poderá ser suficiente para responder à procura em 2035 no cenário de políticas atuais e isto transforma o níquel num dos mercados mais difíceis de projetar.

Existe uma forte procura estrutural potencial, mas também uma capacidade maior de resposta da oferta e uma incerteza tecnológica mais elevada.

Alumínio: leve, abundante e cada vez mais necessário

O alumínio tem uma característica que o distingue do cobre: é muito mais abundante, mas isso não significa, contudo, que a sua oferta seja ilimitada.

O alumínio é utilizado na construção, transportes, automóveis, embalagens, equipamentos industriais, linhas elétricas e tecnologias de energia renovável. É também valorizado por ser relativamente leve, resistente à corrosão e altamente reciclável.

Segundo as projeções da Coface, a oferta poderá chegar a 88,8 milhões de toneladas em 2035, enquanto a procura poderá variar entre 93,7 e 103,1 milhões de toneladas, no cenário superior, a diferença ultrapassaria 14 milhões de toneladas.

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Mas existe ainda outro problema: produzir alumínio requer muita energia, por isso, o custo e a disponibilidade de eletricidade são elementos essenciais para determinar onde a nova capacidade pode ser instalada e a que preço.

A concentração da produção também importa: a China produziu pouco mais de 44 milhões de toneladas de alumínio primário em 2025, aproximando-se do limite nacional de capacidade de cerca de 45 milhões de toneladas. O país representa aproximadamente 60% da produção mundial, segundo o Banco Mundial.

Isso significa que aumentar a oferta global poderá exigir cada vez mais nova capacidade fora da China.

O que diferencia cobre, níquel e alumínio?

Apesar de serem frequentemente agrupados dentro da mesma narrativa de transição energética, os três mercados enfrentam problemas diferentes.

Cobre

Níquel

Alumínio

Principal pressão estrutural

Eletrificação e redes

Baterias + aço inoxidável

Eletrificação, transporte e construção

Facilidade de aumentar oferta

Baixa

Média/alta

Média

Risco de défice estrutural

Elevado

Incerto

Moderado/elevado

Dependência tecnológica

Baixa

Elevada

Baixa

Importância da reciclagem

Alta

Alta

Muito alta

Principal desafio

Novas minas demoram anos

Evolução da oferta e das baterias

Energia e capacidade reprodutiva

  • O cobre apresenta provavelmente o problema estrutural mais difícil de resolver.
  • O níquel enfrenta uma forte expansão potencial da procura, mas também uma oferta que tem conseguido crescer rapidamente.
  • Já o alumínio encontra-se numa posição intermédia: existe matéria-prima abundante, mas transformar essa matéria-prima em metal requer enormes quantidades de energia e capacidade industrial.

A reciclagem pode resolver a falta de metais?

A reciclagem será uma parte cada vez mais importante da resposta, sobretudo para cobre e alumínio, porque ambos os metais podem ser recuperados e reutilizados repetidamente.

No caso do alumínio, reciclar metal requer significativamente menos energia do que produzir alumínio primário. No cobre, a sucata também pode representar uma fonte relevante de oferta secundária, mas existe uma limitação básica: só é possível reciclar metal que já entrou anteriormente na economia e chegou ao fim da sua vida útil.

Uma rede elétrica construída hoje poderá permanecer em utilização durante décadas e omesmo acontece com cobre presente em edifícios, infraestruturas e equipamentos industriais.

Por isso, numa fase em que a quantidade total de metal utilizada pela economia mundial continua a crescer, a reciclagem pode reduzir a necessidade de nova extração, mas dificilmente substitui por completo a produção primária.

A China continua no centro do mercado de metais industriais

É impossível analisar metais industriais sem falar da China: o país é simultaneamente um dos maiores consumidores, produtores e processadores mundiais de matérias-primas minerais.

Durante décadas, a urbanização e a construção chinesas foram grandes motores da procura por metais, mas essa relação está a mudar.

O setor imobiliário chinês atravessa um período prolongado de fraqueza, reduzindo uma fonte tradicional de procura. Ao mesmo tempo, outras indústrias estão a ganhar peso: redes elétricas, veículos elétricos, energias renováveis, baterias e produção tecnológica.

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O Banco Mundial observa precisamente esta divergência: a procura associada à construção permanece fraca, sobretudo devido ao setor imobiliário chinês, mas renováveis, redes elétricas, veículos elétricos, centros de dados e outras utilizações tecnológicas continuam a sustentar o consumo de metais básicos.

Isto significa que acompanhar apenas o imobiliário chinês já não é suficiente para compreender o mercado mundial de metais.

Porque abrir uma nova mina não resolve rapidamente o problema?

Existe frequentemente uma aparente contradição no mercado de matérias-primas: se o mundo tem reservas de cobre, níquel e outros minerais, porque é que pode existir falta de oferta?

Porque reserva mineral e produção anual são conceitos diferentes e descobrir um depósito é apenas o início. Depois é necessário avaliar o recurso, demonstrar a viabilidade económica, obter licenças, garantir financiamento, construir infraestruturas, desenvolver a mina e começar a produção.

Além disso, novos projetos podem enfrentar oposição social, restrições ambientais, falta de água ou energia e aumentos substanciais dos custos, por isso, mesmo quando preços elevados tornam novos projetos economicamente interessantes, a resposta da oferta pode demorar muitos anos.

É esta rigidez que ajuda a explicar porque o mercado do cobre preocupa particularmente os analistas.

O que está a acontecer com os metais em 2026?

O ciclo dos metais industriais voltou a ganhar força em 2026.

O índice de metais e minerais do Banco Mundial subiu 13% apenas no primeiro trimestre de 2026, num contexto de maior preocupação com restrições de oferta. Para o conjunto do ano, a instituição projeta uma subida de 17% do índice.

As projeções do Banco Mundial para 2026 apontam para:

Metal

Preço médio projetado para 2026

Variação anual projetada

Cobre

12.000 USD/tonelada

+20,6%

Alumínio

3.200 USD/tonelada

+21,6%

Níquel

17.000 USD/tonelada

+12,1%

Zinco

3.000 USD/tonelada

+4,6%

Minério de ferro

97 USD/dmt

-3,2%

Fonte: Banco Mundial, Commodity Markets Outlook, abril de 2026.

A evolução dos preços no curto prazo pode mudar rapidamente, mas o que torna este ciclo diferente é a combinação de restrições tradicionais de oferta com novas fontes estruturais de procura.

O Banco Mundial prevê inclusivamente que cobre e alumínio atinjam máximos históricos em termos de preço médio anual em 2026.

Cobre, níquel ou alumínio: qual enfrenta o maior risco até 2035?

Se olharmos apenas para as projeções da Coface, os três enfrentam um potencial défice, mas a natureza do problema é diferente.

  • O níquel apresenta o maior défice relativo nas projeções da Coface, embora a rápida expansão de novos projetos possa reduzir significativamente essa diferença.
  • O alumínio enfrenta uma procura crescente e limites de capacidade, mas beneficia de uma base produtiva maior e de um enorme potencial de reciclagem.
  • O cobre, por outro lado, reúne praticamente todos os elementos de um potencial estrangulamento estrutural: procura crescente, importância transversal na eletrificação, dificuldade em substituir o metal em muitas aplicações, redução do teor dos minérios e longos períodos para desenvolver novas minas.

É por isso que diferentes estudos chegam a números distintos para 2035, mas continuam a identificar o cobre como um dos metais em que a oferta futura merece maior atenção.

O verdadeiro desafio não é ficar sem metais

A economia mundial não está prestes a esgotar fisicamente o cobre, o níquel ou o alumínio, o problema é outro.

A questão é saber se será possível extrair, processar, transportar e reciclar estes metais ao ritmo exigido pela procura, mantendo simultaneamente custos aceitáveis e cadeias de abastecimento suficientemente diversificadas.

Até 2035, o mundo terá de expandir redes elétricas, instalar nova capacidade renovável, eletrificar transportes, construir centros de dados e continuar a satisfazer as necessidades tradicionais da indústria e da construção e tudo isso exige materiais.

E embora o debate sobre a transição energética esteja normalmente centrado na quantidade de eletricidade que será necessário produzir, existe uma questão igualmente importante por baixo de toda essa infraestrutura:

haverá cobre, níquel e alumínio suficientes para a construir?

As projeções atuais não dão uma resposta definitiva, mas deixam claro que a disponibilidade de metais industriais será uma das variáveis fundamentais para determinar a velocidade — e o custo — da transformação da economia mundial.

Perguntas Frequentes

Pode existir falta de cobre até 2035?

As projeções variam consoante os cenários utilizados, mas vários estudos apontam para um risco significativo de a oferta não acompanhar a procura. A Coface estima uma oferta de 31,9 milhões de toneladas em 2035 perante uma procura potencial entre 33,4 e 38,3 milhões. A IEA também identifica o cobre como um dos minerais com maior risco de défice estrutural.

Porque é que a procura de cobre está a aumentar?

Além das utilizações tradicionais na construção e indústria, o cobre é essencial para redes elétricas, energias renováveis, motores, veículos elétricos, centros de dados e outras infraestruturas associadas à eletrificação.

Para que é utilizado o níquel?

O níquel é utilizado sobretudo na produção de aço inoxidável, mas também desempenha um papel importante em determinadas baterias de iões de lítio utilizadas em veículos elétricos e armazenamento energético.

Porque é que o alumínio é importante para a transição energética?

O alumínio é leve, resistente e bom condutor de eletricidade, ele é utilizado em redes elétricas, veículos, energia solar, construção e inúmeras aplicações industriais. A possibilidade de o reciclar com um consumo energético muito inferior ao da produção primária é também uma vantagem importante.

A reciclagem pode eliminar a necessidade de novas minas?

Não completamente, a reciclagem pode aumentar significativamente a oferta secundária, mas grande parte dos metais utilizados atualmente permanece durante anos ou décadas dentro de edifícios, redes e equipamentos. Enquanto o consumo mundial continuar a crescer, continuará a existir necessidade de produção primária.

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